Lendas e Histórias
LENDA URBANA DE EQUADOR: O JUAZEIRO DAS ALMAS
Todo nordestino que se preze conhece o juazeiro, uma árvore frondosa que resiste bravamente à seca e mantém sua folhagem verde ao longo do ano. No sertão, essa planta simboliza a força, a coragem e a resiliência do nosso povo.
No município de Equador-RN, um juazeiro em especial carregava um significado profundo para a comunidade. Ele não era apenas uma árvore, mas um marco de histórias e despedidas, pois servia de abrigo para os corpos das pessoas carentes da zona rural que ali eram deixados enquanto aguardavam a chegada de um caixão comunitário.
A logística era simples, mas carregada de uma triste realidade social. No cemitério local, havia uma pequena capela onde a prefeitura mantinha dois caixões comunitários, já que a cidade não possuía casa funerária e a população da zona rural era numerosa. Quando alguém falecia, principalmente nos sítios mais distantes, o corpo era transportado em redes até o juazeiro, onde permanecia à sombra da árvore até que uma urna funerária estivesse disponível para o sepultamento.
Além dessa função singular, a área ao redor do juazeiro também se tornou um local de descanso final para muitos "anjinhos" — como eram chamados os bebês e crianças que faleciam precocemente. Naquele tempo, a mortalidade infantil era alta, e, de acordo com as normas da Igreja, as crianças não batizadas, conhecidas como "pagãos", não podiam ser enterradas no cemitério cristão. Assim, o sítio próximo ao juazeiro tornou-se um campo santo improvisado, acolhendo pequenos túmulos anônimos e carregando a dor de inúmeras famílias.
Com o passar dos anos, a árvore ganhou a fama de "Juazeiro das Almas", não apenas por ter servido como abrigo para os corpos, mas também pelos relatos de antigos moradores. Muitos diziam que, ao cair da noite, era possível ver sombras vagando pelo local, como se os espíritos daqueles que ali aguardaram seu caixão ainda permanecessem presos entre este mundo e o outro.
Diante da importância histórica e simbólica desse espaço, sugiro que os futuros governantes considerem a construção de uma praça memorial, resgatando essa memória coletiva e honrando aqueles que ali repousaram. E, para que o legado do velho juazeiro não se perca, que seja plantada uma nova árvore semelhante exatamente no local onde ele um dia esteve, perpetuando sua história e seu significado para as gerações futuras.
LENDA RURAL DE EQUADOR: O CÃO DA FAVELA.
Os mais antigos contam que, nos tempos em que o número de moradores do Sítio Favela era muito maior do que o da zona rural ao redor, um fenômeno inquietante perturbava a vida daquela comunidade. Dizia-se que uma entidade maligna rondava as casas durante a noite, espalhando medo e desordem entre os habitantes.
Essa entidade ficou conhecida como o "Cão da Favela", um nome que refletia sua natureza demoníaca e sua fama de tormento para os moradores. Suas travessuras maléficas eram diversas: jogava sal no café, espalhava cabelos na comida, misturava areia nos bolos e aterrorizava as crianças com aparições assustadoras. Além disso, muitos casais viam suas noites transformadas em pesadelos, pois a criatura parecia ter um prazer especial em infernizar as relações, causando brigas e desentendimentos inexplicáveis.
A presença do "Cão da Favela" se tornou uma constante no imaginário popular, e a população, assustada, tentava de diversas formas afastá-lo. Porém, foi apenas quando uma senhora profundamente religiosa decidiu enfrentá-lo que a lenda ganhou um desfecho marcante. Dizem que, numa noite de coragem e fé, ela aguardou pacientemente a aparição da entidade e, munida de um cordão de São Francisco, impôs-lhe uma severa surra. Após isso, o "Cão da Favela" desapareceu sem deixar rastros, e nunca mais se ouviu falar de suas artimanhas naquela região.
Com o tempo, a história virou parte do folclore local e, até hoje, quando alguém é fofoqueiro, intrometido ou vive perturbando os outros, é comum ouvir a expressão: “Lá vem o Cão da Favela!”. Assim, essa antiga lenda segue viva na memória do município, perpetuada pelas gerações que cresceram ouvindo sobre o temido espírito travesso que um dia assombrou o Sítio Favela.
LENDA RURAL DE EQUADOR-RN
O CÃO DA FAVELA E A GUERRA DAS VAZANTES.
Em uma época remota na comunidade rural de Favela, no município de Equador-RN, vivia uma criatura mística, demoníaca e travessa, cuja missão era infernizar a vida dos moradores, criando contendas e ódio que alimentavam sua natureza maléfica. Nos períodos de longa estiagem, a luta dos agricultores pela sobrevivência intensificava-se, e cada pequeno terreno úmido, onde fosse possível plantar, era naturalmente disputado e protegido, como era o caso das vazantes.
No sítio, habitava uma senhora muito devota chamada Rosa, que vivia em intensa oração. Constantemente, ela recebia a visita do cão da favela, que a infernizava, narrando todas as maldades cometidas. Rosa repreendia e até mesmo exorcizava o ser. Em uma noite de seca extrema, o cão revelou que faria os agricultores, seu João e seu José, brigarem por causa de um barramento de açude.
Na manhã seguinte, o cão colocou seu plano em prática. Durante a noite, foi à várzea, pisoteou todas as plantações do senhor José e incutiu em sua mente que seu vizinho João era o responsável. Ao amanhecer, José confrontou o inocente João, sem compreender o que estava acontecendo. O ser corria até Rosa, dizendo que a briga estava prestes a acontecer, mas ela, sempre em oração, não dava atenção.
O roçado de seu José, repleto de melancias, tornou-se alvo do cão novamente. Ele bateu nas melancias, fazendo barulho ouvido a dois quilômetros de distância, insinuando que alguém estava roubando as frutas. Quanto mais irritados ficavam, mais o cão sorria, se divertindo com a contenda. Ele tentava incessantemente provocar uma briga séria entre os dois, buscando as últimas consequências.
A contenda evoluiu, resultando em uma séria discussão entre João e José, deixando-os intrigados para sempre. No entanto, graças às orações de dona Rosa, o caso não teve consequências mais graves. Feliz por ter realizado mais uma maldade, o cão da favela saiu dando várias gargalhadas em pleno sol escaldante no meio da caatinga.
LENDA URBANA: O LOBISOMEM DE EQUADOR
Esta é uma das lendas urbanas mais antigas e conhecidas de Equador-RN, transmitida de geração em geração e cercada por mistério, medo e fascínio. Durante décadas, a história do Lobisomem de Equador alimentou a imaginação popular, tornando-se parte importante do folclore local.
Diferente dos lobisomens retratados em muitas histórias ao redor do mundo, o personagem dessa lenda possuía características próprias que o tornavam ainda mais assustador. Os moradores descreviam uma criatura de olhos vermelhos como brasas acesas, capaz de provocar arrepios apenas com sua presença. Sua origem também era envolta em mistério. Conta-se que, ainda recém-nascido, foi encontrado abandonado dentro de uma caixa de sapatos e adotado por uma família da cidade. A falta de informações sobre seus pais biológicos contribuiu para o surgimento de inúmeras especulações e histórias sobrenaturais.
Com o passar dos anos, os boatos cresceram. Diziam que, nas noites de lua cheia, ao chegar a uma encruzilhada, aquele homem solitário se transformava em uma criatura monstruosa, metade homem, metade fera. Naquela época, as madrugadas em Equador eram marcadas pelo frio intenso e por uma névoa espessa que cobria ruas, becos e estradas. Esse cenário sombrio reforçava ainda mais o clima de medo que cercava a lenda.
Muitos afirmavam ter ouvido seus uivos assustadores ecoando pela cidade durante a madrugada. Segundo a tradição popular, os gritos da criatura podiam ser escutados em sete pontos diferentes do município: o Cemitério, o Juazeiro das Almas, a Igreja Matriz, a Capela, o Centro, o Cercado de Seu Dedé e o Alto da Bela Vista. O som atravessava a noite silenciosa, espalhando inquietação entre os moradores.
Mas o que mais impressionava era o fenômeno que antecedia os uivos. Pouco antes de a criatura aparecer, os cães começavam a latir desesperadamente, como se percebessem algo que os humanos não conseguiam ver. Em seguida, um silêncio profundo e perturbador tomava conta da cidade. Para muitos, era o sinal de que o Lobisomem estava por perto. Alguns relatos afirmavam que ele tinha prazer em provocar os cachorros, deixando-os em completo desespero antes de desaparecer novamente na escuridão.
Verdade ou imaginação popular, a lenda do Lobisomem de Equador permanece viva na memória dos moradores. Até hoje, ela é lembrada em conversas, encontros familiares e rodas de histórias, preservando um dos mais curiosos e fascinantes relatos do folclore local.
E você? Já ouviu alguém contar essa história? Talvez conheça alguma versão diferente dessa antiga lenda que continua atravessando gerações e alimentando o imaginário do povo equadorense.
Entre as histórias mais curiosas e assustadoras do imaginário popular de Equador-RN, destaca-se a lenda do Morto-Vivo da Pandemia de Cólera, um relato que atravessou gerações e continua sendo lembrado pelos mais antigos.
Conta a tradição oral que, nos primeiros anos de formação da cidade, as condições sanitárias eram extremamente precárias. Nesse período, uma terrível epidemia de cólera atingiu a região, espalhando medo e tristeza entre as famílias. A doença se propagava rapidamente e, diante da falta de recursos médicos, o número de mortes aumentava a cada dia.
Em meio àquela tragédia, ocorreu um fato que marcaria para sempre a memória dos moradores. Dizem que um homem, dado como morto pela doença, teve seu corpo preparado para o sepultamento. Familiares e amigos seguiram em cortejo até o cemitério, onde iniciaram os ritos fúnebres. Porém, antes que o enterro fosse concluído, uma forte tempestade caiu sobre a cidade. Raios cortavam o céu, trovões ecoavam pelos arredores e uma chuva intensa obrigou todos a abandonarem o local às pressas.
O caixão foi deixado parcialmente coberto pela terra, enquanto os presentes buscavam abrigo do temporal. Foi então que aconteceu o inesperado.
Segundo a lenda, o homem não estava morto. Em meio à chuva e ao frio da madrugada, ele despertou, levantou-se do próprio túmulo e, ainda confuso, seguiu lentamente pelas ruas de terra em direção à sua casa.
Ao chegar, encontrou as portas fechadas. Dentro da residência, sua esposa chorava inconsolável, cercada por familiares que tentavam confortá-la. Quando ouviu uma voz familiar chamando seu nome do lado de fora, a mulher acreditou estar diante de uma assombração.
Tomada pelo pavor, correu desesperadamente pela porta dos fundos, gritando que o marido havia retornado dos mortos. Os vizinhos, assustados com a cena, espalharam a notícia por toda a comunidade. Em poucas horas, o acontecimento já era comentado em cada casa, ganhando novos detalhes a cada relato.
Com o passar dos anos, a história foi sendo contada de pais para filhos, transformando-se em uma das mais conhecidas lendas urbanas do município. Verdadeira ou não, ela permanece viva na memória popular como um dos relatos mais intrigantes surgidos durante os tempos difíceis da epidemia de cólera, lembrando um período marcado pelo sofrimento, pelo medo e pelas histórias que ajudaram a construir o folclore local.
LENDA URBANA DE EQUADOR: O SEPULTADO VIVO
Há histórias que atravessam gerações e permanecem vivas na memória coletiva, mesmo quando ninguém consegue afirmar com certeza onde termina a verdade e começa a lenda. Esta é uma delas.
Conta-se que, há muitos anos, viveu em Equador um homem bastante conhecido por seu hábito de consumir grandes quantidades de aguardente. Por respeito aos seus familiares, seu nome se perdeu no tempo e jamais é mencionado quando a história é contada. O que permanece vivo é o mistério que cerca os acontecimentos daquela fatídica manhã.
Segundo os relatos populares, após uma longa noite de excessos, o homem sofreu um grave coma alcoólico. Na época, os recursos médicos eram limitados e, para familiares, vizinhos e até mesmo para aqueles que o examinaram, não havia dúvidas: ele estava morto.
A notícia espalhou-se rapidamente pela cidade. Como era costume naquele tempo, o sepultamento ocorreu poucas horas depois, antes mesmo de completar vinte e quatro horas do suposto falecimento. Em uma manhã de domingo, sob o olhar de familiares e conhecidos, o corpo foi levado ao cemitério público e enterrado.
Porém, os acontecimentos que vieram depois transformariam aquela morte em uma das mais assustadoras lendas urbanas do município.
Alguns frequentadores do cemitério afirmaram que, dias após o enterro, começaram a ouvir sons estranhos vindos da sepultura. Durante a noite, seriam ouvidos ruídos semelhantes a pancadas e arranhões. Outros diziam que a terra sobre o túmulo apresentava rachaduras incomuns, como se algo tentasse emergir das profundezas.
Muitos atribuíram o fenômeno ao processo natural de acomodação do solo e à decomposição do corpo. Com o passar dos dias, os comentários diminuíram e a vida seguiu seu curso.
Tempos depois, quando a família decidiu construir uma catacumba no local, foi necessário abrir novamente a sepultura. Foi então que surgiu a parte mais inquietante da história.
Segundo os relatos, o corpo não estava na posição em que havia sido enterrado. Em vez de repousar tranquilamente, encontrava-se de bruços. O interior do caixão apresentava marcas profundas e o revestimento estava rasgado, como se alguém tivesse tentado desesperadamente escapar.
A descoberta espalhou espanto por toda a cidade. Teria o homem despertado após ser enterrado? Teria ocorrido algum fenômeno inexplicável? Ou tudo não passava de imaginação alimentada pelo medo e pelas histórias contadas à luz das lamparinas?
Ninguém jamais soube responder.
Verdade ou não, a história do Sepultado Vivo tornou-se parte do folclore de Equador. Até hoje, os mais antigos contam que, nas noites frias e silenciosas, quem passa próximo ao cemitério pode ouvir gemidos distantes misturados ao som de madeira sendo arranhada, como um eco vindo do passado, mantendo viva uma das mais inquietantes lendas urbanas da cidade.
LENDA URBANA DE EQUADOR: A MULHER DO LENÇOL BRANCO
Entre as lendas mais conhecidas de Equador-RN, nenhuma desperta tanta curiosidade e romantismo quanto a história da Mulher do Lençol Branco.
Os mais antigos contam que, há muitos anos, viveu na cidade uma mulher que mantinha um romance secreto com um importante político local. Viúvo e respeitado pela sociedade, ele jamais assumiu publicamente o relacionamento. Ninguém sabia ao certo os motivos daquele silêncio, mas a mulher passou a ser conhecida pelos moradores como "a primeira-dama que nunca foi reconhecida".
Naquela época, as noites de Equador eram marcadas pelo frio intenso e pelas ruas silenciosas. Para evitar comentários e preservar o segredo, a mulher costumava sair de casa somente depois da meia-noite. Enrolada em um grande lençol branco que a protegia do frio e escondia sua identidade, seguia discretamente pelas ruas em direção à casa do homem que amava.
Ao longe, sua figura branca surgindo na escuridão assustava quem a encontrava pelo caminho. Muitos acreditavam estar diante de uma alma penada ou de uma aparição sobrenatural. Com o passar do tempo, os relatos se espalharam e o mistério cresceu. Havia quem jurasse ter visto um fantasma vagando pelas ruas da cidade nas madrugadas mais frias.
Os anos passaram, mas o romance nunca veio a público. Quando o político faleceu, a mulher permaneceu sozinha. Dizem que jamais deixou de amá-lo e que viveu seus últimos anos guardando lembranças de um amor que nunca pôde ser vivido plenamente à luz do dia.
Após sua morte, a história ganhou contornos de lenda.
Conta-se que, nas noites mais escuras e frias de Equador, uma figura feminina envolta em um lençol branco ainda pode ser vista caminhando lentamente pelas ruas da cidade. Seu destino é sempre o mesmo: a antiga casa do amado. Porém, antes de chegar ao portão, ela desaparece silenciosamente no meio da escuridão.
Para os que acreditam, trata-se da alma da Mulher do Lençol Branco, condenada a repetir eternamente o caminho que percorreu durante toda a vida, em busca do reconhecimento e do amor que nunca teve.
E até hoje, quando alguém avista uma sombra branca cruzando as ruas silenciosas da cidade durante a madrugada, logo surge o comentário:
— Lá vai a Mulher do Lençol Branco, visitando mais uma vez o seu grande amor.
O Mistério do Casarão do Sítio Riacho da Vaca
Durante a década de 1980, eu tinha a rotina de caminhar até o Sítio Riacho da Vaca para buscar leite para minha irmã mais nova. No percurso, passava sempre em frente ao imponente casarão que dominava a paisagem local. Suas paredes robustas, a arquitetura marcante e o majestoso altar despertavam minha imaginação, levando-me a questionar quais histórias e segredos aquele lugar guardava.
A propriedade, que nos anos 1940 foi uma das mais importantes da região, pertencia ao senhor José Pedro de Maria. Naquela época, a fazenda era um centro de intensa atividade econômica, destacando-se pela produção de rapadura e farinha. Atualmente, ainda podem ser vistos vestígios do antigo engenho, enquanto parte significativa do casarão permanece preservada, testemunhando a grandeza de um passado próspero.
Segundo relatos de Dona Luzia Maria da Silva, hoje com 79 anos e neta do antigo proprietário, a fazenda era um lugar movimentado, mas regido por regras rígidas. Entre elas, existia uma que despertava grande curiosidade: era terminantemente proibido entrar em um determinado quarto da casa. O cômodo escondia a entrada para um local secreto — um porão construído para servir de refúgio à família em tempos de ameaça, especialmente durante o período em que o temor dos ataques de cangaceiros ainda fazia parte da realidade do sertão.
O assunto era tratado com absoluto sigilo. A existência do esconderijo raramente era mencionada, pois havia o receio de que sua descoberta pudesse trazer problemas, já que construções desse tipo eram mal vistas e, em determinadas circunstâncias, proibidas pelas autoridades da época.
CURIOSIDADES/RELIGIOSIDADE DE EQUADOR:
A CAPELINHA DO FINADO GERALDO
No povoado de Tanquinho, conhecido por todos como Sítio do Pinga, há uma pequena capela situada no alto da serra, um ponto que desperta a curiosidade dos moradores e visitantes. Essa construção, singela mas carregada de significado, marca o local de um episódio trágico que se tornou parte da história da região.
A capela foi erguida no exato ponto onde, anos atrás, encontraram o corpo de um jovem com deficiência chamado Geraldo, filho de Zé Vicente. Geraldo era epiléptico e levava uma vida reclusa, raramente visitando a cidade. Certo dia, seu pai decidiu levá-lo até o espaço urbano, talvez na tentativa de integrar o filho a uma nova rotina. No entanto, diante do ambiente desconhecido e tomado pelo medo, o rapaz fugiu na tentativa de retornar para casa.
Sem familiaridade com o trajeto e desorientado, ele se embrenhou na caatinga, que, na época, era ainda mais densa e inóspita. Os dias se passaram e, apesar das buscas incessantes, apenas depois de um tempo encontraram seu corpo naquele exato local. Acredita-se que tenha morrido de fome e sede, sem conseguir reencontrar o caminho de volta.
Um detalhe sombrio marcou ainda mais essa história: quando o corpo foi encontrado, alguns membros estavam ausentes, possivelmente devido à ação de animais da região. Segundo relatos, pouco tempo depois do ocorrido, Geraldo teria aparecido em sonho para um homem chamado Zé Primo — meu avô — revelando os locais onde estavam as partes de seu corpo. Impressionado com a visão, ele compartilhou a experiência, e a busca se reiniciou, levando à descoberta dos restos mortais.
Como era costume cristão, o sepultamento de Geraldo foi realizado no cemitério público da cidade. Para manter viva sua memória e marcar o local onde foi encontrado, a comunidade ergueu a pequena capela, transformando-a em um espaço de oração e respeito. Com o passar dos anos, a história de Geraldo de Zé Vicente se consolidou como uma lenda local, carregada de misticismo e fé, perpetuada pelas gerações que cresceram ouvindo sobre a capela no alto da serra.
LENDA RURAL: A BOTIJA DA BARAÚNA
A botija era um recipiente de barro ou cerâmica utilizado antigamente para guardar objetos de valor, como moedas de ouro, joias, documentos e outros bens preciosos. Em uma época marcada pelo medo dos ataques de cangaceiros e de outros saqueadores, muitas famílias tinham o costume de esconder suas riquezas em botijas, moringas, potes e outros recipientes. Esses tesouros eram enterrados em locais estratégicos, como quintais, paredes, muros, debaixo de árvores ou próximos a pedras e plantas de fácil identificação, para que pudessem ser recuperados posteriormente.
Entretanto, muitas pessoas morriam antes de revelar o esconderijo ou de resgatar seus bens. Daí surgiu a crença popular de que suas almas permaneciam presas ao tesouro, aguardando alguém que pudesse libertá-las.
Conta-se que um morador de nossa cidade sonhou com uma dessas almas. Durante o sonho, ela lhe pediu que fosse sozinho até uma antiga baraúna, onde havia uma botija enterrada. Disse que, ao desenterrá-la, ele estaria libertando-a do castigo que sofria por permanecer ligada àquela riqueza. A alma também advertiu que ele enfrentaria manifestações sobrenaturais durante a escavação, mas que não deveria demonstrar medo nem desistir da tarefa.
O homem, conhecido por sua coragem, seguiu todas as orientações. Foi sozinho até o local indicado e iniciou a escavação. Apesar dos estranhos acontecimentos que, segundo a tradição, tentavam assustá-lo, conseguiu encontrar a botija e retirar as preciosidades ali escondidas.
Ninguém sabe ao certo qual foi o destino de todo o tesouro. No entanto, alguns moradores afirmam ter visto moedas de ouro maciço em poder desse homem, que, pouco tempo depois, adquiriu terras, gado e diversos outros bens.
Como acontece em muitas narrativas do imaginário popular, a riqueza teria vindo acompanhada de um alto preço. Conta-se que esse senhor — cujo nome permanece preservado pela tradição — perdeu a esposa, viu sua família se desfazer e enfrentou a morte de pessoas próximas em circunstâncias consideradas misteriosas. Coincidência ou não, o povo costuma dizer que toda botija traz consigo uma maldição, e que nenhum tesouro enterrado é conquistado sem que algo precioso seja deixado para trás.
CAUSO: A BRIGA DO PERIQUITO
Entre as histórias mais curiosas transmitidas pela tradição oral do município de Equador está a famosa Briga do Periquito, um causo que atravessou gerações e continua sendo lembrado pelos moradores mais antigos.
Conta-se que, quando a cidade ainda era apenas um pequeno povoado, o lugar era conhecido como Periquito. O nome teria surgido em razão da grande quantidade desses pássaros que habitavam a região e cruzavam diariamente os céus, voando de uma serra para outra em busca de água e alimento. O voo dos bandos de periquitos, acompanhado de seu característico barulho, fazia parte da paisagem e acabou dando identidade ao povoado.
Naquela época vivia no local uma senhora muito conhecida chamada Dona Maria. Simples, acolhedora e bastante popular, ela mantinha uma pequena venda onde comercializava bebidas, refeições e oferecia descanso aos tropeiros e viajantes que cruzavam a região. Seu estabelecimento tornou-se um importante ponto de encontro, e muitos passaram a se referir ao povoado, de forma bem-humorada e até um pouco pejorativa, como "o Periquito de Dona Maria".
Certa ocasião, Dona Maria resolveu promover um grande forró em sua casa de taipa, de chão batido, como era comum nas festas do sertão. A animação tomou conta da noite, mas, em meio à música, à bebida e à multidão, iniciou-se uma enorme confusão. A briga envolveu diversos participantes, houve troca de agressões e, segundo os relatos, até o uso de facas e outros instrumentos cortantes.
No dia seguinte, o subdelegado da localidade — que, de acordo com documentos históricos recentemente encontrados, provavelmente era um importante fazendeiro da região — convocou Dona Maria para prestar esclarecimentos sobre o ocorrido.
Sem muita instrução e acostumada à linguagem simples do povo sertanejo, ela tentou explicar o episódio da única maneira que sabia. Quando o delegado perguntou o que havia acontecido, Dona Maria respondeu:
"Olhe, seu delegado, nasci no Periquito, no Periquito me criei, estou de cabelo branco no Periquito e nunca tinha visto um rolo tão grande como o de ontem à noite."
Diante da resposta inesperada e da simplicidade da depoente, o delegado, sem saber muito bem como continuar o interrogatório, apenas respondeu:
"Pode ir embora, Dona Maria. A senhora está dispensada."
Se o episódio realmente aconteceu dessa forma, ninguém sabe ao certo. Não existem registros oficiais que comprovem a história, mas ela permanece viva na memória popular e continua sendo contada de geração em geração, tornando-se uma das mais divertidas e conhecidas lendas do antigo povoado de Periquito.
Mais do que narrar uma grande confusão, a história preserva um pouco do modo de falar, dos costumes e do espírito bem-humorado dos primeiros habitantes da região, mantendo viva uma tradição que faz parte do patrimônio cultural imaterial de Equador.























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